A Seleção


O fim das peladas de rua e o destino da Seleção


Campos havia em profusão.
Se era num lugar alto, chamavam de Parque Antártica;
se ao lado tinha um alagado ou cano de água sempre quebrado, era Beira Rio;
se ficava perto de bairro chique, Morumbi;
se numa árvore ao redor havia ninho de papagaio, era Maracanã.

Crianças jogando futebol de rua com a camisa da Seleção.

Os meninos passavam o dia lá.
Nada era medido, nada era calculado.
O drible era espontâneo.
Craques brotavam em abundância.
Muitos brincavam com a camisa 6, mas quando iam para a Europa, vestiam a 10.

Times para torcer também havia muitos.
E para formar a seleção, fartura em cada posição.

Mas o tempo muda tudo.

— Vão embora daí, molecada. Terreno vazio não dá lucro.

Fim dos campos de futebol e das peladas de rua.

O desenvolvimento ocupou todos os espaços.
Não sobrou espaço para a molecada.

Sem campos e sem rua, a infância mudou de brinquedo.
Pararam de brincar com os pés, agora só brincam com as mãos.
Em casa, sozinhos, o perigo da brincadeira é virtual.
Na rua, o perigo é real — e as mãos seguram outro tipo de brinquedo.

Times também mudaram.
Agora, em quase todos os bairros só há dois.
E se o bairro não tem prédios e belas lojas, sobra apenas um:
o time oficial.
Torcer para o outro é arriscar não torcer nunca mais.

Violência urbana.

Brincar com os pés?
Só em escolinha.
Mas elas são longe.
E nelas se brinca de graça. 

Hoje a maioria prefere brincadeiras lucrativas.
Mesmo assim, alguns insistem e vão para a escolinha.

Talvez sejam ecos do passado que resistem.
Mas lá tudo é medido, tudo é calculado.
Antes o drible era bonito, dava respeito.
Hoje é feio; rende punição dos professores: 

– Para de firula, moleque. Passa a bola ou sai da brincadeira.

Talvez por isso já não brincam como antes.
Antes, cada um brincava diferente.
Agora todos brincam mais ou menos igual.

Muitos ainda vão brincar com os pés na Europa.
Mas lá também mudou.
Lá vestem a camisa 6.
E quando já cansaram de brincar ou cansaram de suas brincadeiras, voltam ao Brasil — onde agora a brincadeira é mais fácil — e então vestem a 10.

O que mais mudou foi a Seleção.
Antes não se sabia quem levar, de tanta fartura.
Agora não se sabe quem escolher, de tanta escassez.

A Seleção já não é de craques.
É apenas o reflexo do que restou das nossas brincadeiras.

Porto Velho, 18 de maio de 2026.

Libersum


Sobre a importância do futebol de rua e da brincadeira, leia interessante artigo de João Batista Freire e Rafael Castellani, da Universidade do Futebol.

Segundo o geógrafo Glauco Roberto Gonçalves, da USP, o desaparecimento do futebol de rua revela uma cidade de São Paulo “adoentada”.


Leia também os contos do autor:

Kiko, o doido

BR-364


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