Kiko, o doido


O doido da cidade pequena.


Toda cidade do interior tinha o seu doido. Algumas, até mais de um.

Na minha cidade natal não era diferente.

Todos conheciam o Kiko, embora quase ninguém conhecesse sua família.

Passeava pelas ruas nos mesmos horários, com tamanha precisão que, se fosse filósofo, daria para regular os relógios pelos seus passos.

Magro e alto, sempre com um sorriso aberto no rosto. Caminhava rápido. Quando alguém lhe perguntava o nome, vinha sempre a mesma resposta, cantada em verso:

— João Batista de Oliveira, perna fina e corredeira, cravo das moças e alecrim das meninas.

Era a única expressão que saía de sua boca. Nunca o ouvimos falar outra palavra.

O destino também não variava: a praça central da cidade. Ficava ali, duas horas inteiras no balanço até o almoço. À tarde voltava e balançava até o pôr do sol.
Eu, só de vê-lo no balanço, já ficava com o estômago embrulhado — como se fala no interior do Paraná — porque nunca aguentei ver alguém se balançando sem sentir náuseas.

Praça de cidade do interior, onde o doido passava horas no balanço

Havia ainda um segundo doido: o Pedro da Mala. Um homem de uns sessenta anos. Diziam que tivera família e filhos, até que, de repente, ficou doido e passou a andar pelas ruas com uma pasta abarrotada de papéis. Em qualquer esquina, especialmente no ponto de táxi, tirava um documento e ficava olhando fixo, como se lesse algo invisível.

No mais, conversava baixinho consigo mesmo, palavras inaudíveis, enquanto esfregava o polegar e o indicador da mão esquerda sobre a cabeça, como quem estivesse cultivando ideias fabulosas.

Desenho representando a mala e documento do doido Pedro

E era isso: sabíamos que ambos eram doidos. Se me perguntassem o que é um doido, eu não saberia definir. Mas apontaria para eles dois, até porque não havia nenhum outro doido por lá — ao menos aparentemente.

“Doido” era uma palavra simples e autoexplicável.

Na cidade vizinha também havia o “Cálculo”.

Um doido peculiar: bastava lhe dar qualquer multiplicação que ele fechava os olhos, encostava o indicador na testa, murmurava uns números (“sobe 1, vai 2, tira 5”) e em segundos cuspia o resultado exato. Nem a calculadora o alcançava.

Além disso, dobrava folhas de papel e delas surgiam cavalos, dragões, templos, figuras delicadas. Só muitos anos depois descobri que aquilo tinha nome estrangeiro: origami. Mas “Cálculo” nunca falara em Japão, só deixava as mãos trabalharem.

Chamavam-no de doido. Eu ainda não sei.

Cálculo e origamis representando o doido Cálculo

Hoje não moro mais lá. Também não ouvi mais falar de doidos na minha terra natal. Acho que não existem mais. Ou talvez tenham mudado de nome. Agora que temos os Sacerdotes da Palavra, é bem provável que “doido” tenha ido parar no índex. Porque tudo muda — até mesmo os doidos.

Kiko mesmo mudou. Um dia, um agente de saúde decidiu levá-lo para o hospício da cidade grande.

Eu pensava que nas cidades grandes não havia doidos. Talvez porque eu quase não fosse até elas. Talvez porque escondessem ou mandassem os doidos para cidades pequenas. Talvez recebessem algum tratamento e deixassem de ser doidos. Ou, quem sabe, porque lá o nome fosse outro. Nunca soube.

O fato é que Kiko voltou diferente. Não cantava mais o seu verso, pois já não tinha a perna fina e corredeira: voltara gordo e lento. O sorriso, também, tinha ficado por lá.
Perdera até a pontualidade. Restara apenas o costume do balanço. Mas agora ele se balançava desde a manhã até o fim do dia, sem parar. Horas e horas no mesmo movimento.

E eu continuava igual: sempre com o estômago embrulhado.

Enfim, na minha cidade tínhamos Kiko e Pedro. Na cidade vizinha, havia o Cálculo.
Um para o balanço, outro para os papéis, e o terceiro para os números. Três manifestações distintas daquilo que chamávamos de doido.
Mas se alguém resolvesse pensar melhor, talvez percebesse que nenhum de nós escapava totalmente dessas mesmas manias: todos tínhamos nossos balanços, nossos papéis e nossas contas intermináveis. 

Porto Velho, março de 2026

Libersum


A maneira como as sociedades definem quem é considerado “louco” mudou muito ao longo do tempo. Uma reflexão interessante sobre esse processo e a medicalização da vida aparece em: https://revistahcsm.coc.fiocruz.br/loucos-e-degenerados/


Lei também os contos do autor:

A moeda – uma alegoria sobre a polarização política.

BR-364 – sobre os andarilhos das estradas.


O “doido” nas cidades do interior

O conto Kiko, o doido retrata figuras excêntricas comuns nas cidades pequenas do interior brasileiro. Personagens como Kiko, Pedro da Mala e o Cálculo revelam como a sociedade define quem é considerado “doido”, sugerindo que todos carregamos nossas próprias manias.

1 comentário em “Kiko, o doido”

  1. Fico imaginando o que se passa com pessoas assim, o que de tão trágico deva ter acontecido em suas vidas para fazer com que queiram esquecer da realidade e viver apenas no seu mundo imaginário. Lindo conto, emocionante e ao mesmo tempo instigador….. quais seriam os loucos da nossa época, com todo o respeito mas, os que se denominam “therians” não estariam quase no mesmo patamar de Kiko, Pedro da mala e Cálculo? Será que esses também estão tão tragicamente decepcionados com a vida que decidiram esquecer que são humanos? Está aí uma pergunta que me faço depois de ler esse conto.

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