Ameríndia, a singular.


Em Ameríndia, um império moderno tenta conciliar guerra, eficiência, diversão e esquecimento. Mas toda morte nomeada cobra seu preço.


De fato, a Ameríndia é um país bastante singular.

É habitada por um povo guerreiro que já se envolveu em muitas guerras, algumas bem grandes. E aqui já começa sua singularidade: são tão guerreiros que nunca admitiram outros povos travarem guerras dentro do seu território. Só permitem que eles mesmos guerreiem entre si. Certa feita lutaram tanto que quase se partiram em dois.

Lá não se tem o hábito de promulgar muitas leis; preferem o costume.

Assim, não sei se foi por alguma lei ou por costume, mas depois de tantas batalhas criou-se uma norma singular: toda vez que um presidente da Ameríndia manda suas poderosas forças armadas atacar algum alvo, ele é obrigado, depois de finda a operação especial – é assim que chamam essas intervenções – a dar uma coletiva de imprensa e ditar o nome de todas as pessoas que morreram no conflito.

Logo após a norma entrar em vigor, ocorreu uma situação um tanto constrangedora. O presidente de ocasião fez um cálculo muito preciso: se atacasse Persépolis, evitaria que esta construísse bombas muito poderosas e ainda destruiria a tirania que a governava. O objetivo principal, porém, seria criar alguns obstáculos bem sérios para a Amarelândia – principal rival da Ameríndia – conseguir combustível.

A operação especial foi precisa, com poucas baixas ameríndias, mas muitas do lado atacado.

Durante a obrigatória coletiva de imprensa, o presidente começou a soletrar os nomes dos mortos. Eram difíceis de pronunciar em sua língua. Veio o suor, o cansaço, a voz falhava. Por fim, perdeu a paciência e bradou a plenos pulmões: Pelo amor de Deus, nas próximas operações matem menos gente!

A repercussão não foi muito boa, e ele, desde então, não mais autorizou operações semelhantes até o fim do seu mandato, nem mesmo concorreu à reeleição.

Presidentes eleitos posteriormente ficaram intimidados com aquele caso e foram mais comedidos, praticamente não autorizando novas operações.

Coletiva de imprensa em Ameríndia

Mas o tempo passa e aos poucos tudo é esquecido, em especial aquilo que nos incomoda.

Outros presidentes assumiram o cargo e não foram tão contidos, mas sempre exigiram o menor número de baixas possível para suas coletivas de imprensa não se prolongarem demais.

Nisso, uma nova norma surgiu – não me perguntem como – nas coletivas de imprensa: os jornalistas poderiam perguntar ao presidente para ele contar a história de uma das baixas adversárias.

Assim, em todas as operações especiais, os serviços de inteligência passaram a ser obrigados a fazer minuciosos relatórios sobre todas as pessoas mortas, pois não sabiam qual delas seria escolhida pelos jornalistas para o presidente cumprir o singular ritual de contar sua história.

Veio então uma operação em uma faixa estreita de região desértica, com centenas de vítimas nomeadas uma a uma pelo presidente.

Uma jornalista então perguntou pela história da baixa de um jovem de 16 anos. A assessoria rapidamente entregou o dossiê ao presidente, e este iniciou a leitura da história de vida daquele que não mais a tinha.

Não havia nada de especial na vida dele. Tinha a vida comum, igual à de qualquer jovem de 16 anos de Ameríndia, com irmãos, pais, avós, tios e primos. O presidente, inclusive, tinha um filho de 18 anos com história muito semelhante à daquela jovem baixa colateral do ataque. Num ato falho, o presidente chamou o jovem morto pelo nome de seu próprio filho. Os olhos dele marejaram ao narrar o momento dos pais sepultando o filho, com os parentes ao redor. Pensou em sua esposa, em seus filhos e em seus parentes naquele velório. Imaginou o próprio filho, de terno, estendido sem vida num caixão.

Ele não concluiu a leitura da história. Quem estava mais perto ouviu-o dizer, com a mão tampando o microfone e empurrando-o para frente, desviando o rosto e abaixando levemente a cabeça: Meu Deus, o que eu fiz!

A seguir abandonou a coletiva de imprensa, que precisou ser concluída pelo porta-voz.

Resultado: cessaram as operações especiais durante seu mandato – e a carreira política dele.

Desde então a assessoria de imprensa, sediada no palácio presidencial – chamado de Casa Diáfana –, passou a controlar a narrativa dessas histórias, para que não fossem muito dramáticas.

Ademais, suspeitavam que parte dos integrantes dos serviços de inteligência e dos militares não via com bons olhos a maioria das operações especiais, pois não apreciava intrometer-se em assuntos estrangeiros e queria usar suas forças apenas para defender o próprio território. 

Mas os presidentes precisavam de muito esforço para se elegerem e parte desse esforço era suportada por dedicados colaboradores de campanha, muitos dos quais gostavam dessas operações especiais. Os presidentes não queriam ser ingratos com pessoas que tanto os ajudaram.

Enfim, coube à equipe de assessoria de imprensa deixar mais palatáveis as histórias dos mortos “do outro lado”.

Esses assessores eram muito eficientes no seu trabalho. Um exemplo mostrará bem o quanto. Tiveram que lidar com uma mulher grávida morta em um hospital usado de esconderijo por um grupo de terroristas que atormentava um país vizinho, aliado dos ameríndios. 

A situação se complicava um pouco porque os militares não lhes ofereciam informações muito relevantes. Limitavam-se a dizer que a operação se justificava no âmbito militar, pois era responsabilidade dos terroristas terem deliberadamente escolhido um hospital como esconderijo.

– Como assim? – dizia a jornalista oficial. E arrematava: – Esses cálculos de vocês militares são perfeitos para justificar um ataque, mas são um desastre diante de jornalistas em uma coletiva.

No fim, conseguiram lapidar tanto a história que os jornalistas nem perceberam aquela tragédia. Acabaram escolhendo para o presidente falar sobre um professor de educação infantil que morrera no mesmo hospital.

Após contar sua história, o presidente simpatizou com ele e pensou de si para si: – Poxa, eu poderia tranquilamente ter feito com esse cara uma pescaria e um belo churrasco no final de semana. 

Um presidente, pródigo em ordenar ataques, além de deleitar-se em erguer muros e elevar tarifas, e cansado de suportar sozinho o ritual de ler nomes de mortos e suas histórias, resolveu compartilhar o fardo com a imprensa.

Embora lá não se tivesse o costume de legislar sobre a imprensa, ele resolveu criar uma lei, pois considerava bobagem respeitar a tradição.

Então a imprensa também ficou obrigada a contar os mortos em todas as reportagens que fizesse, não só a respeito de guerras e operações militares, mas também de qualquer acidente ou tragédia natural. 

A obrigação de contar a história dos mortos ficou estabelecida em 10% do total. Os ameríndios são práticos e gostam de ciências exatas.

O presidente ria das reportagens, com as listas intermináveis de nomes e histórias.

Certa feita comentou em uma reunião com sua assessoria de imprensa que não via a hora – conversava esfregando uma mão na outra – de uma grande tragédia, algo como um maremoto no Sudeste Asiático, para ver como seriam as reportagens a respeito de milhares de mortos.

Aquilo foi um pouco demais para sua assessora-chefe – frequentemente se lamentava do fato de seu chefe ter, em suas palavras, a “sensibilidade de uma retroescavadeira” – e ela pediu imediatamente demissão, alegando que esses cálculos a estavam deixando um pouco maluca e pretendia emigrar para outro país, onde buscaria recuperar sua sanidade quase perdida, e então foi viver na Costa Rica, por ser um país também singular: há décadas dispensara exércitos.

E as guerras e operações militares seguiram a todo vapor com tal presidente.

Parque de Diversão em Ameríndia

Mas vamos deixar as guerras de lado e falar de coisas mais divertidas, até porque a Ameríndia é pródiga em diversão. Aliás, ela tem muitos espaços dedicados a esse fim, que lá são chamados de parques de diversão.

Talvez por esse seu espírito guerreiro a Ameríndia precise de tantos parques de diversão. Um povo que conta publicamente os mortos de suas guerras precisa esquecer o mais rápido possível que eles existiram.

E essa é outra singularidade sua, pois, apesar de possuir os maiores e mais belos parques de diversão do mundo, além de vários outros espaços destinados à diversão espalhados em profusão por todo o seu imenso território, aparenta ser notavelmente carente de felicidade.

Nunca entendi isso muito bem, mas penso que um povo prático e guerreiro como aquele não pretende ocupar seu precioso tempo com a felicidade – ela exige demora, interioridade e algum risco; a diversão, não. 

Além disso, como tudo na vida exige o seu contrário, pois, se para ter luz é preciso uma escuridão a ser iluminada, a felicidade também necessita do seu oposto. Então, para não correr riscos e nem perder tempo, talvez os ameríndios deixem essa bobagem de felicidade e infelicidade de lado e prefiram anestesiar-se com a diversão.

Singular também são seus restaurantes e sua comida. Ao mesmo tempo em que possui vários dos melhores restaurantes do mundo, os ameríndios têm uma das piores dietas que conheço neste vasto planeta.

Os Senhores de Guerra são frequentadores assíduos desses bons restaurantes. Nisso se diferenciam da maioria dos ameríndios, pois apreciam a boa alimentação. É certo que somente eles e alguns poucos ameríndios dispõem de tempo e dinheiro para pagar a conta desses caros estabelecimentos.

A maioria, seja por costume, gosto ou preço, prefere a comida rápida e barata das redes de fast food.

É de fato estranho que um povo tão evoluído, tecnológico, com algumas das melhores universidades do mundo à sua disposição, seja tão primitivo no ato de comer: parece que nesse ponto ainda vivem no plano meramente biológico – comem apenas para saciar a fome.

Já andei muito por este mundo, e na maioria dos países o ato de comer é uma verdadeira celebração e não um gesto prático e meramente biológico.

Mas um povo acostumado à guerra aprende cedo a valorizar rapidez, resultado e eficiência. Talvez por isso também comam como quem abastece uma máquina.

E, pensando melhor, até nisso os ameríndios se mostram mais espertos do que os outros povos. Para poder fazer tanta guerra, eles precisam de quem as proponha e as organize. Quem propõe e organiza precisa de reflexão, e não rapidez. E não há lugar melhor para refletir do que um bom restaurante, tomando bons vinhos – mas eles são caros. Então, calha que os poucos que podem pagá-los são os que refletem e os que comem como máquina são mais adaptados para a batalha, até mesmo porque não dá pra comer tão bem e nem tomar belos vinhos no meio de uma batalha. 

Enfim, dá para perceber como são bem práticos em tudo o que fazem.

E assim, entre fast food, muita diversão e coletivas de imprensa, marchará esse império moderno pelo mesmo caminho de todos os outros que o precederam no comando do mundo? Fará essa jornada sozinho ou nos arrastará todos consigo?

Porto Velho, abril de 2026.

Libersum


Este conto também dialoga com uma intuição formulada por Isabel Lucas a propósito de Kurt Vonnegut: a guerra moderna não desaparece quando cessa o fogo; ela persiste como estrutura mental, linguagem pública e normalização moral do horror. A respeito: https://quatrocincoum.com.br/ensaios/literatura/kurt-vonnegut-e-o-que-nao-se-aprende/


Leia também o conto do autor: A moeda – uma alegoria sobre a polarização política.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

error: Conteúdo protegido!
Rolar para cima