BR-364


Caio tem tudo o que a carreira de advogado prometia: sócio em grande escritório, vida confortável em Perdizes, futuro garantido. Até o dia em que simplesmente abandona tudo e vira andarilho, caminha rumo ao Oeste, até um quilômetro perdido da BR-364, onde seu silêncio passa a dizer mais sobre nós do que sobre ele.


Em pouco mais de 10 anos de carreira, Caio já conseguira tudo que desejara na advocacia: sócio, ainda que minoritário, no grande escritório onde começara como estagiário; remuneração que superava em muito suas despesas; apartamento no bairro Perdizes; carro novo; belas namoradas. Acreditava que tudo chegara cedo demais. Calculava que levaria 20 anos para chegar ao patamar em que se encontrava e isso o deleitava.

Chegou ao escritório, na Avenida Paulista, por volta das 11 horas, depois de mais uma bem-sucedida audiência em um grande caso empresarial.

Às 11h30 desceu com sua pasta e passou a caminhar pela Avenida Paulista. Sua secretária não notou nada de diferente, apenas estranhou o fato de ele ter ido almoçar mais cedo. Creditou isso ao estrondoso sucesso obtido naquele vultoso caso, cujo desfecho era aguardado com grande expectativa pelos sócios seniores.

Ele simplesmente seguiu caminhando, totalmente absorto em sua jornada.

Um leve encontrão com um menino e este fugiu correndo com sua pasta. Ele esboçou um pequeno sorriso por livrar-se daquele peso morto.

Ingressou na região do bairro Santa Cecília. Um jovem em uma bicicleta o abordou agressivamente, apontando-lhe uma faca e exigindo seu relógio.

Ele entregou, entre gargalhadas, aquele objeto tão caro e agora totalmente inútil para ele, pois só servia para contar horas e dias.

O larápio saiu com aquele relógio pensando de si para si: “louco”.

Seguiu firme e entrou no bairro Pirituba, já nos arrabaldes da cidade. Ali foi abordado por duas pessoas em uma motocicleta. O garupa, de arma em punho, exigiu a carteira e o celular. Entregou tudo ordeiramente, mas soltou outra gargalhada, o que lhe rendeu uma coronhada na testa.

Continuou caminhando sem se perturbar com o sangue que jorrava, sujando seu rosto e manchando a roupa.

O sangue teve de se contentar em se coagular sozinho, sem a ajuda de medicamentos ou sequer de uma mão a apertar o corte para estancar o jorro.

Com o corte ainda aberto, atravessava ruas e cruzamentos sem sequer diminuir o passo para observar o trânsito. Xingamentos, buzinadas, veículos freando e desviando bruscamente para não atropelar aquele pedestre resoluto, obstinado e indiferente ao movimento da cidade: nada o abalava. Era como se ele fosse invisível para todos, e todos – com suas regras – simplesmente fossem invisíveis para ele também.

Caiu a noite e ele seguiu em linha reta, sem nenhum cansaço.

Pegou a estrada rumo a São José do Rio Preto e caminhou até tarde da noite. As pernas vacilaram e ele deitou ali mesmo, ao largo da estrada, para dormir. O terno virou seu travesseiro.

Fazia anos que não tinha uma noite de sono tão tranquila.

Tornou-se andarilho!

Acordou com o sol e retomou sua jornada. Não lhe faltava água, seja de poças de chuva, seja de paradas em casas, oficinas, borracharias. Comida, ia pegando o que encontrava pelo caminho.

Não achou nada estranho o fato de sempre conseguir água quando tinha sede e algo para comer quando tinha fome.

Caminhava com sol, buscava abrigo quando chovia e dormia ao relento quando sentia cansaço.

Os cabelos e a barba já estavam longos, a pele ressecada, seus andrajos nem de longe lembravam o fino terno que usara pela última vez, quando irrompeu em Rondônia pela BR-364.

Andarilho chegando em Rondônia pela BR-364

Quando atingiu o quilômetro 840, entre Porto Velho e Rio Branco, teve uma epifania: se chegasse ao quilômetro 841 morreria imediatamente; a mesma sorte o aguardava se retrocedesse ao quilômetro 839.

Estacionou ali, disposto a ficar, depois de tantos anos parando apenas à noite para dormir.

Era julho. O sol era inclemente. Não havia nenhuma presença humana por perto. Nenhuma habitação. De um lado da estrada, juquira — como se falava naquela região —; do outro lado, uma zona alagadiça, agora praticamente seca pelo verão amazônico.

Fez uma pequena barraca com pedaços de madeira e sapé e fitou o horizonte.

Não tardou, um veículo parou, deixando com ele bastante comida.

Comeu e teve sede. Foi até o arremedo de alagado e sorveu água, depois de afastar um pouco a lama com as mãos.

Dormiu tranquilamente como sempre. Quando o sol raiou, ficou lá, sentado em sua barraca improvisada. Outro carro parou e ganhou um guarda-sol.

Assim se seguiram várias noites bem dormidas e dias de muito sol. Sempre algum carro parava e deixava garrafas de água, comida; até aguardente lhe foi presenteada, assim como roupas limpas, remédios, livros, santinhos, cigarros, pequenos aparelhos eletrônicos, bilhetinhos com conselhos. Excetuando a água e a comida, o resto ele largava num canto, até se perder na poeira e na juquira.

Quando lhe perguntavam o que fazia ali, apenas repetia sua epifania. Quando lhe perguntavam nome e origem, fazia apenas uma cara interrogativa, dava de ombros e nada dizia.

Um rico fazendeiro das redondezas, depois de ganhar muito dinheiro com a indenização de suas terras em razão do alagamento causado por uma usina hidrelétrica, teve a brilhante ideia de dar ao andarilho um presente, “qualquer que fosse, independentemente do preço”.

Anunciou seu belo plano em todas as redes sociais e foi ao encontro do andarilho, ora sedentário. Este apreciava o pôr do sol quando o fazendeiro incomodou seu silêncio com o barulho de sua caríssima caminhonete. Desceu, colocou-se entre ele e a visão do sol e disse-lhe:

— Quero dar-lhe um presente, peça o que quiser.

O cínico espírito de Diógenes1 pareceu baixar sobre o andarilho, e este redarguiu:

— Restitua minha visão do poente e suma daqui.

O fazendeiro foi-se embora triste e envergonhado, sem nada entender. Pensou: “Não adianta querer ajudar essas pessoas. Não sabem dar valor às coisas.”

O andarilho voltou ao seu silêncio. Chegou a noite. Dormia tranquilamente quando foi acordado pelo raro canto de um uirapuru. Ouvia atentamente aquela melodia quando começaram os trovões, anunciando a mudança de estação, apesar do céu claro. Duas estrelas cadentes riscaram o céu fazendo movimentos semelhantes a uma cruz. Sentiu um frêmito a percorrer-lhe todo o corpo e uma renovada sensação de liberdade tomou conta de si. Pensou: “Hora de partir”.

Andarilho abandona sua parada na BR-364

No dia seguinte, um casal guajaramirense estava no supermercado em Porto Velho comprando produtos dificilmente encontráveis em sua cidade. Quando já se dirigiam para o caixa, a pequena menina puxou o casaco do pai e falou:

— Papai, a comida do tio da estrada.

Eles voltaram às gôndolas, pegaram um fardo de água mineral e alguns víveres.

Quando pararam no km 840, viram apenas o guarda-sol e velhas quinquilharias. Outro carro parou, e mais outro, igualmente com víveres.

Todos ficaram surpresos com a ausência. Fizeram uma pequena busca nas redondezas e nem sinal.

Um a um, voltaram à estrada, na esperança de ver o costumeiro andarilho caminhando pelo acostamento.

Ninguém cruzou com ele. Cada qual tomou seu destino: Guajará-Mirim, Vista Alegre do Abunã, Extrema, Nova Califórnia, Rio Branco, fazendas da região. Todos com a mesma sensação de vazio.

Andarilho no Rio Madeira, nas margens da BR-364

Naquele mesmo dia, depois de alguns minutos de caminhada ao raiar do sol, sem cruzar por vivalma, num ponto em que a BR-364 se aproxima do Rio Madeira, ele resolveu se banhar e tomar água do rio, longe dos olhos de todos.

Em Porto Velho se diz que quem bebe a água do Madeira sempre volta.

Ninguém soube, depois, de onde ele voltaria — nem para onde tinha ido.

Porto Velho, fevereiro de 2026.

M. – Liber Sum


Para saber mais sobre a vida de andarilho, visite:

https://jornal.unesp.br/2024/02/15/estrada-da-vida/


  1. Para quem quiser conhecer a anedota filosófica que inspirou este episódio – o encontro entre Diógenes e Alexandre, o Grande –, recomendo este comentário: https://filosofianodia-a-dia.blogspot.com/2016/11/diogenes-de-sinope-diogenes-o-cinico-e.html
    ↩︎

Leia também o conto do autor: A moeda

Leia também o conto do autor: O Labirinto de Id

1 comentário em “BR-364”

  1. Conto muito muito instigante e provocador. Excelente. Faz uma crítica radical ao modo hegemônico de se viver na atualidade, num ritmo frenético, porém repetitivo e esvaziado de sentido, tomando como referência o caso de um de um advogado bem sucedido, com uma vida confortável, numa metrópole, que decide, sem mais nem menos, repentinamente, abandonar tudo e cair na estada, caminhando sem eira, nem beira, passando a viver como um andarilho. Há mais de vinte anos desenvolvo pesquisas com andarilhos de estrada e posso atestar que esse conto pinça com muita precisão aspectos fundamentais do modo errante de viver dos andarilhos em contraste com nosso modo urbano, sedentarizador e estacionário.

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